Eliana Maria Nigro Rocha

 e-gagueira.com.br

 

Disfluência

           Todos nós temos, de modo intuitivo, o conceito de fluência ideal. Esta seria uma fala fluida, harmoniosa, sem interrupções desnecessárias, que expressasse de modo claro e transparente a ideia que o falante deseja transmitir ao ouvinte.

           Infelizmente, esse é um conceito ideal e, na maioria das situações de comunicação, está bem distante do real.

           O usual é que o falante esteja às voltas com o complexo processo de transmitir em palavras e frases os seus pensamentos, seus desejos, suas emoções e isso não é simples. É importante lembrarmos da concomitância do planejamento e execução da fala, ou seja, ao mesmo tempo em que estamos organizando nossa fala, estamos - nesse mesmo tempo - emitindo-a. Essa concomitância de processos tão complexos em muitos momentos deixa transparecer falhas, seja através de uma expressão que nos foge à mente, seja em uma frase cuja concordância está incorreta ou mesmo na emissão de uma palavra que é inadequadamente pronunciada.

           Além disso, temos várias ocorrências de hesitações, de inserções de vocábulos, de repetições, de alongamentos que indicam que houve um momentâneo desequilíbrio entre o planejamento e a execução. Por exemplo, podemos ter algo como:

          "Então eu entendo que...que... que o entrave do sistema educacional..."
          "Então eu entendo queeeeeeee o entrave do sistema educacional...."
          "Então eu entendo aaaahnnn que o entrave do sistema educacional...."
          "Então eu entendo éééééé que o entrave do sistema educacional...."

          Mesmo cientes da naturalidade dessas rupturas, podemos considerá-las disfluências, ou seja, ocorrências que evidenciam que a fluência da fala foi rompida.

          As disfluências são aceitas como naturais pelos ouvintes, desde que não sejam extremamente frequentes nem fujam muito das características do timbre, do volume e da tensão que vinham ocorrendo nessa comunicação. O falante de uma língua - com variações individuais de acordo com a sensibilidade de cada um para esse quesito - tem facilidade em captar quando essas disfluências excedem o que seria considerado uma incidência "normal" de rupturas. Para alguns, qualquer pequena hesitação na emissão seria um indício importante, para outros, a aceitação de grande quantidade de rupturas é natural. Essa variação entre os diferentes ouvintes pode estar relacionada com seu nível de exigência pessoal, com sua formação educacional, com seus hábitos de comunicação e até com seu nível socioeconômico. A grande valorização atual do poder de comunicação também tem incrementado a preocupação com esses tópicos.

          Temos autores como Bloodstein e Gregory que apresentaram a ideia do "continuum" entre a disfluência e a gagueira. Assim em um extremo teríamos esporádicas disfluências, consideradas absolutamente naturais ao processo de comunicação. No extremo oposto teríamos a gagueira, com grande número de rupturas da fala.

          Mas não é apenas a quantidade de disfluências na fala que definem esses extremos. Muitas das rupturas observadas na gagueira são semelhantes às disfluências, mas outras são típicas de quem gagueja, especialmente o fato de as rupturas ocorrerem no vocábulo e não entre eles.

          No que se refere às crianças, existem algumas especificidades. Sendo aprendizes da língua, é esperado que apresentem maior número de disfluências do que os adultos. Mas a permanente preocupação é de acompanhar se sua evolução decorre naturalmente ou se será preciso intervir para facilitar sua fala.

          O período inicial de aquisição de linguagem efetivamente é muito importante para o estabelecimento de uma base forte sobre a qual se dará a continuidade e aprimoramento da comunicação do indivíduo no decorrer de sua vida. Embora os estudos atuais indiquem o fator genético-hereditário como uma das possíveis causas da gagueira, já temos informações de que a carga genética se manifesta em dependência de fatores ambientais. Nos dizeres do geneticista Tiago Pereira: "as evidências sugerem fortemente uma origem genética, mas a interação gene-ambiente parece ser fundamental para o desenvolvimento da gagueira"[1] .

          São os fatores ambientais aqueles que podemos tentar modificar para que sejam os mais adequados possíveis à evolução benigna da fluência. Parece claro que uma carga genética mais intensa se manifestará independentemente das facilitações que forem feitas no ambiente, mas mesmo assim, acreditamos que ela possa ser abrandada com intervenções adequadas.


LIVRETO SOBRE DISFLUÊNCIA

A_fala_e_o_rio - Priscilla Silveira. Ilustrações: Lorena Rocha 

[1] Pereira, TV. Gagueira e Genética. Anais do Forum IBF-UFRJ. 2007



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