Eliana Maria Nigro Rocha

 e-gagueira.com.br

 

Especialidade em Distúrbios da Fluência

 

 SEM RECONHECIMENTO OFICIAL, DISTÚRBIOS DA FLUÊNCIA JÁ É DE FATO UMA ESPECIALIDADE

 

 

            Não é de hoje que fonoaudiólogos brasileiros buscam o reconhecimento da especialidade DISTÚRBIOS DA FLUÊNCIA no Brasil.

 

            Já em 1997, quase vinte anos atrás, foi criado o Comitê Nacional de Fluência da Fala que buscava agrupar os fonoaudiólogos que atuavam com os DISTÚRBIOS DA FLUÊNCIA e que, até então, se encontravam desgarrados, cada qual isolado em seu consultório, garimpando conhecimentos para melhorar sua atuação clínica. Foi uma das primeiras associações que surgiram, sem ter sequer sua denominação reconhecida em nosso Conselho Federal. Vários dos participantes desse grupo, para adquirirem o título oficial de especialistas, precisaram optar entre as áreas de motricidade oral ou linguagem, uma vez que DISTÚRBIOS DA FLUÊNCIA não pertencia e nem era englobado em sua totalidade por nenhuma delas.

 

            Não por acaso, pouco tempo após sua fundação esse Comitê foi encampado pela Sociedade Brasileira de Fonoaudiologia, como seu primeiro comitê. Foi a visão aberta desta Sociedade que entendeu  esse movimento espontâneo de parte de seus associados como uma indicação das definições das especialidades. Estas estavam surgindo quase que espontaneamente a partir da necessidade de agregar interesses científicos semelhantes.

 

            Infelizmente, em uma nova acomodação que se fez necessária, a denominação Comitê foi alterada para Departamento e a Sociedade precisou seguir o que dizia nosso Conselho Federal. Deste modo, o Comitê de Fluência inicialmente ficou dentro do Departamento de Linguagem e depois migrou para o Departamento de Motricidade Oral. Essa migração, mais uma vez, demonstrou de modo claro como DISTÚRBIOS DA FLUÊNCIA tem especificidades que não encontram respaldo nas características dessas áreas e não se encaixa confortavelmente em nenhuma delas.

 

            Posteriormente surgiram ainda a Associação Brasileira de Gagueira - Abra Gagueira, o Instituto Brasileiro de Fluência – IBF e o Instituto Fala e Fluência – IFF. Observa-se que já somamos, portanto, quatro entidades que buscaram o encontro de seus pares, representantes de uma área de atuação, que ainda não encontraram em suas entidades maiores o espaço de que necessitam para crescer.

 

            Em decorrência dessa situação de ausência de reconhecimento de existência, parte de nossos estudiosos dos DISTÚRBIOS DA FLUÊNCIA abandona nossas entidades maiores e busca no exterior o que lhes faz falta em seu país. Em mais um contrassenso, outra parte desses estudiosos é reconhecida internacionalmente e convidada a dar cursos no exterior, em uma demonstração clara de que sua expertise é devidamente valorizada. Não é por menos! Quantos mestres e doutores já adquiriram esse título através de estudos primorosos sobre os DISTÚRBIOS DA FLUÊNCIA! Quantos livros e capítulos de livros já foram escritos por esses fonoaudiólogos desbravadores! Quantos artigos sobre DISTÚRBIOS DA FLUÊNCIA de nossos profissionais brasileiros já povoam revistas científicas internacionais!

           

            Deste modo, nessa situação esdrúxula temos vários fonoaudiólogos “especializados” em DISTÚRBIOS DA FLUÊNCIA – termo criado para dar conta desta situação caótica na qual tantos dos nossos fonoaudiólogos se encontram, sem ter um título oficial que lhes permita serem considerados especialistas.

 

            Temos nos perguntado o que falta para que obtenhamos o reconhecimento ao qual há muito já fazemos jus. Vemos outras áreas merecidamente obterem esse reconhecimento enquanto DISTÚRBIOS DA FLUÊNCIA aguarda impaciente.

 

            Verificamos que internacionalmente esta é uma área aceita e valorizada há décadas, o que tem favorecido seu crescimento e propiciado o destaque científico dos países em que isto ocorre, especialmente nos congressos específicos da área dos DISTÚRBIOS DA FLUÊNCIA.

 

            Será que os representantes das entidades maiores brasileiras não tem ciência dessa situação? Será que já não divulgamos suficientemente que 1% da população apresenta alterações da alçada dos DISTÚRBIOS DA FLUÊNCIA? Será que o conhecimento do volume crescente de participantes dos congressos voltados aos DISTÚRBIOS DA FLUÊNCIA não é de domínio público? Será que ao menos os fonoaudiólogos não atinaram que existe uma revista internacional específica para esse tema, com publicação trimestral? Será que não constataram quantos inúmeros artigos das revistas científicas versam sobre DISTÚRBIOS DA FLUÊNCIA?

 

            É desanimador não vermos avanço na situação oficial dos   DISTÚRBIOS DA FLUÊNCIA, especialmente quando vemos que outras áreas o obtém.

 

            A dedicação dos profissionais da área de DISTÚRBIOS DA FLUÊNCIA merece esse novo patamar. Nossos estudantes de Fonoaudiologia merecem poder obter maiores conhecimentos, fornecidos por especialistas na área. Nossa população merece um atendimento mais congruente com os avanços científicos evidenciados nesta área nas duas últimas décadas, ao invés de continuarem ouvindo fórmulas antigas e ultrapassadas, decorrentes de profissionais que, ou não recebem ensino atualizado ou marcam passo, sem serem beneficamente contaminados pelo sopro do novo.

 

            Não é muito o que pedem os fonoaudiólogos especializados em DISTÚRBIOS DA FLUÊNCIA. Eles simplesmente solicitam seu título de especialistas, o que só se tornará possível quando essa grande área de estudo, já viva e forte, puder ter sua independência reconhecida e se tornar uma das especialidades do Conselho Federal de Fonoaudiologia.