Eliana Maria Nigro Rocha

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Gagueira Psicogênica


          Uma gagueira "diferente" não será necessariamente uma gagueira neurogênica, podendo ser psicogênica e o diagnóstico diferencial nem sempre é fácil, principalmente devido às reações emocionais presentes neste segundo quadro.


IMPORTÂNCIA DO DIAGNÓSTICO DIFERENCIAL

          É essencial o encaminhamento ao neurologista e/ou psiquiatra para avaliação, diagnóstico, eventual medicação ou intervenção cirúrgica nos casos onde se suspeita de uma possível origem neurológica ou psíquica. Existirá uma delimitação mais clara do prognóstico no caso de ser constatada uma lesão. Teremos a possibilidade de obter um entendimento melhor do quadro que o paciente apresenta, inclusive das inter-relações entre neurológico e emocional.

          É importante escolher entre encaminhar ao neurologista e/ou ao psiquiatra. No entanto, mesmo com o encaminhamento, não é simples definir o tipo de gagueira devido às limitações da investigação neurológica/ psiquiátrica. Existe pouca familiaridade dos neurologistas/psiquiatras com a gagueira, falta de possibilidade de realização de exames mais minuciosos, desvalorização do sintoma de disfluência, o que é compreensível em alguns casos nos quais a gagueira é apenas um pequeno achado frente a transtornos neurológicos e psíquicos gravíssimos.

          Podemos buscar por uma abordagem mais direcionada através das provas terapêuticas mais prováveis de obterem bons resultados.



EXEMPLO DE UM CASO DE GAGUEIRA NEUROLÓGICA/PSÍQUICA

          Uma paciente do sexo feminino, jovem adulta passou a apresentar gagueira após o rompimento de seu noivado. Conjuntamente passou a apresentar crises epilépticas. Em exame neurológico foi constatada calcificação patológica na região fronto-parietal esquerda (tomografia computadorizada) e atividade irritativa na região temporal esquerda (eletro-encefalograma). A conclusão foi que a paciente apresentava crises parciais elaboradas por neurocisticercose (forma inativa). Apresentava também disartria. O diagnóstico foi de epilepsia parcial com comprometimento da consciência, cisticercose e distúrbio da fala.

          Embora a avaliação médica deixasse clara a ocorrência de um quadro neurogênico, todo o comportamento da paciente ante sua fala nos dizia da possibilidade de uma gagueira psíquica: sua verborragia incessante e a tranqüilidade ante uma fala extremamente prejudicada nos faziam lembrar a típica "belle indefférence" destes casos. A pesquisa na literatura especializada nos fez ver que a dificuldade de diagnóstico diferencial era compartilhada com os demais estudiosos do tema.


          Essa dificuldade diagnóstica continua, como nos mostra um artigo científico publicado em julho de 2015. O estudo foi realizado no Centro Médico Naval de São Diego, Califórnia, com apenas dois casos (como é usual nos estudos nessa subárea com incidência tão pouco frequente): adultos que sofreram dano cerebral leve provocado por explosivos e que passaram a apresentar rupturas na fluência.  A ausência de achados neurológicos objetivos apontaram para uma gagueira psicogênica, como tem sido o procedimento usual de diagnóstico: por exclusão.

          Os autores consideraram que o diagnóstico diferencial teve um valor limitado no desenvolvimento do programa terapêutico para os pacientes em questão. Confira o abstract.



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